20 de março de 2018

Viagens por Maruim – “Os sobreviventes da Rua do Assobio” | Por Hefraim Andrade

Desprezados e discretos, os postes telegráficos da Siemens Brothers ou Siemens London, sobrevivem ao longo da Rua Barão do Rio Branco, que é popularmente chamada de Rua do Assobio ou do Correio. Eles são o símbolo e o marco do avanço tecnológico duma época e do declínio dum período que ainda é muito fascinante mesmo nos dias atuais.


Quem da geração infante dos anos noventa, nunca deparou-se tocando, explorando, ou quem sabe até dando voltas num desses postes ao vir da escola?! Ao menos comigo era assim. E apesar de não saber quase nada sobre eles naquela época, sabia que eram especiais e que escondiam algo; tinha essa consciência! - É impossível recordar o quanto povoaram e inundaram os meus pensamentos questionadores! E mesmo havendo outros tipos de postes na cidade, garanto que nada era e nada é como aqueles postes de ferro! Infelizmente, os por mim tão amados postes telegráficos, já não funcionam para o fim ao qual foram cravados no solo. Podemos perceber também através da observação dos mesmos, que talvez, em outra ocasião, tivessem sido utilizados como suportes para cabos telefônicos, e nos dias atuas, servindo como enfeites ou como quebra impactos às fachadas de algumas casas. Neles, ainda há, muitas vezes coberta por uma grossa camada tinta branca, a seguinte inscrição: “Siemens Brothers Patent ou Siemens London.”


A Siemens Brothers, empresa inglesa de origem alemã, gerida por muitos anos pelos irmãos Ernst Werner von Siemens (1816-1892), Carl Wilhelm Siemens (1823-1883) e Carl Heinrich von Siemens (1829-1906), tinha como principal atividade a instalação de cabos telegráficos. Chegou a fornecer, em 1860, cabos para o Império Brasileiro e sabe-se que, sete anos depois, construíra a primeira longa linha telegráfica brasileira. Há registros de que a partir de 1873, algumas capitais como Belém, Recife e Salvador já eram beneficiadas com o serviço telegráfico. Por incrível que pareça-nos, no Sergipe de 1878, só havia três estações telegráficas: a de Aracaju, a de Estância e a de Maruim, Esta última fora fundada no ano de 1878 e teve como colaboradores, o cônsul alemão F. Otto Schramm, Thomaz Rodrigues da Cruz e o coronel José de Faro Rollemberg. - Seria o mesmo que dizer, em linguagem informal e popular, que Maruim “lacrava pelo fio” (rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsr). Este serviço ajudara muito aos sócios do Gabinete de Leitura de Maruim e contribuíra para a divulgação de material intelectual e de algumas opiniões, sejam de cunho político ou não. Vale salientar que, às vezes, essas “opiniões” geravam desentendimentos, como o caso do afastamento de Nogueira Cravo, então redator no Gabinete de Leitura e chefe do Telégrafo. Deduz-se que não queriam que a Revista Literária do Gabinete ficasse atualizada sobre as notícias que circulavam pelo Império. Percebemos assim o quanto o magnífico telégrafo criado em 1830, nos EUA, por Samuel Morse, e introduzido no Brasil em 1857 fora tão importante na vida política e intelectual maruinense. Segundo dados, em um único ano de atividade, a Estação Telegráfica Maruinense “transmitiu 3.236 telegramas com 37.556 palavras e recebeu, no mesmo período, 3.438 telegramas com 41.854 palavras.” (CRUZ E SILVA. 2006). Quanto ao Seu declínio, provavelmente começou com a invenção do telégrafo sem fio e do avanço das linhas férreas; da modernização das estradas, etc. Mas o motivo real/oficial do fim do serviço de telégrafos maruinense, não encontrei. O fato é que tudo está em movimento constante e é mister que apareçam avanços e modernidades que superem outras.


Para concluir, atesto que, daquele período glorioso, só resta-nos os inda palpáveis postes, - donos da minha atenção a cada vez em que caminho pela Rua do Correio. - Ao vê-los, poucos poderiam imaginar a importância dos enferrujados, porém imponentes pilares que jazem tão discretos às calçadas, resistindo ao tempo... Queria muito que fossem tombados e privados da destruição ou da degradação, realidade que julgo não estar tão distante, se nada for feito.  - Ah! Se houvesse em Maruim um memorial decente, desvinculado de “politicagens” e que não sofresse com os desdobramentos desta; gerido pelo IPHAN quem sabe! Que cuidasse bem dos “Sobreviventes da Rua do Assobio”.


Até a próxima.


Fontes:

CRUZ E SILVA, Maria Lúcia Marques. Revista Literária do Gabinete de Leitura de Maroim (1890-1891): Subsídio para a história dos impressos em Sergipe. São Cristóvão – Sergipe. 2016.

https://revistagalileu.globo.com/Tecnologia/Inovacao/noticia/2016/06/7-coisas-que-voce-nao-sabia-sobre-cabos-submarinos.html
http://www.britishtelephones.com/histsibr.htm
http://www.museuimperial.gov.br/informacoes-importantes.html?id=3025
https://en.wikipedia.org/wiki/Siemens_Brothers 


| Hefraim V. Andrade nasceu em em Aracaju em 1991, membro duma família oriunda da cidade de Riachuelo - SE e de origem judaico-sefardí, que mudara-se para Maruim nos anos 70. É ativista em defesa de Israel e dos Direitos Humanos Universais. Ocupa a cadeira de número dois da Academia Maruinense de Letras e Artes - AMLA. Também Faz parte do Cumbuka Coletivo Cultural, - Grupo apartidário que vem promovendo eventos socioculturas  e de incentivo à sustentabilidade no Município.  Quanto a sua vida na escrita, ela começa na sua infância e passa por sua adolescência e juventude, quando fez parte de eventos de caráter poético e estende-se até os dias atuas indo da sátira ao que se pode entender, por ele mesmo por "formal". | 



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