14 de março de 2018

Viagens por Maruim - Cruzeiro do Novo Século, a cidade dos vivos | Por Hefraim Andrade

"Ola!”. Alguns dias passaram-se desde a última vez! - De imediato quero agradecer a cada um que leu a minha publicação anterior e a primeira duma série. - Fiquei contente pela boa recepção dalguns e pelo bom número de visualizações. - Grato! 


Foto: Acervo Hefraim Andrade
Dando prosseguimento às nossas viagens, quero convidar-vos a adentrar na “Cidade dos Vivos”. - Este foi o adjetivo por mim escolhido para definir o Cruzeiro do Novo Século (maio de 1896), nosso cemitério, que sobrevivera atravessando os séculos e que resiste às inconstâncias do nosso presente! Cemitério que substituíra o anterior, que fora alvo dos desentendimentos do homem! E assim a história prossegue e é somente olhando através dela, que percebemos que enganaram-se os nossos profetas, quando afirmaram: “Maruim morrera!” - Numa parte estavam certos! Maruim já não vive seus tempos de glória; noutra, erraram! Erraram por desconhecer que a morte é muito relativa e por não saberem que no morrer não se morre! - Isso é fácil de entender tendo sensibilidade e olhando atentamente para qualquer uma das tumbas ali presentes! 

Ontem (12) fui até ao local por volta das 15h. Ao longe, dava para avistar sua fachada e capela, ambas pintadas de branco e de azul, o que de certa forma ajuda a ocultar o seu verdadeiro estado! Não é de agora que visito o local, não apenas para visitar o túmulo da minha família, mas para tirar fotografias do lugar, intencionando salvaguardar a nossa história, que por incrível que pareça, em parte, só poderá ser contada pelos jazigos ali presentes, e direi mais: Pelos túmulos ora desgastados, abandonados e ultrajados! 


Há túmulos ali, e alguns, com mais de cem anos e com detalhes artísticos incríveis; com frases, poesias… Muitos são suntuosos! Há túmulos de ilustres, como é o caso do Herói de Guerra Zacaria, cujo túmulo é muito incomum! Vale a pena visitar! (saibam mais na minha publicação - Peculiaridades no Cemitério de Maruim – Uma lápide diferente). No cemitério há também a tumba da família Curumba, dos Rego, dos Menezes, dos Barroso, dos Maia e até dum italiano que viera residir aqui no século XIX. - Pessoas que tiveram notória participação na construção histórica de Maruim! - Tenho que relatar que fora indescritível a minha sensação quando deparei-me com uma tumba com cores! Não lembro-me de ter visto algo assim a não ser num vídeo sobre um cemitério na Romênia. Na lápide havia a seguinte inscrição: “Zacaria Isidoro Cardoso – 02/01/1920 – 25/12/2011 – Exército Brasileiro – Herói”.  - Eu pensei: Como agir normalmente depois de ter visto isso?! Um Maruinense fora lutar na Segunda Guerra Mundial! - Não consigo entender o porquê do silêncio da cidade em relação a isso! - Sempre idealizei pessoas, professores, acadêmicos, etc., visitando a necrópole, fazendo-a de ponto turístico! Imagino-a sempre contendo bancos para que os visistantes possam sentar-se e meditar, a final, é também olhando para morte que podemos conduzir as nossas vidas! - O cemitério, na minha opinião, deveria ostentar uma estrutura administrativa adequada e não sei se seria sonhar alto de mais, mas acho que deveria ser um museu a céu aberto, com tumbas catalogadas para que não fosse muito dificultoso para alguém encontrar o lugar de repouso de seu ente querido. Outro caso muito interessante é o das simbologias presentes nas lápides, - Há muito por trás dos lindos altos-relevos em mármore, muitas vezes codificando ou revelando muito do falecido ou da sua família, sua filosofia de vida, etc. Eu cheguei dar ênfase ao do senhor José Nunes Maynart, nascido a dezembro de 1844 e falecido em 1911. Encontra-se ainda ao lado direito do cemitério. - Um túmulo feito de mármore branco acinzentado, ornado com ramagens de hera trepadeira em alto-relevo. Acima, temos uma âncora e uma cruz concorrentes que sobrepõem-se a uma rosa posicionada à vertical e, sobreposto aos três, um coração. Segundo alguns estudos de simbologia, isso poderia ter a seguinte explicação: A soma das imagens poderia significar que a pessoa ali sepultada seria devota e fundamentada em sua religiosidade cristã; que amava a sua religião (o coração); que era devota da santa católica Maria ou que seus familiares lamentavam que tivesse sido colhida deste mundo (a rosa). Poderia ser também algum tipo de modismo da época, o que explicaria outros com certa semelhança. Devo expor também que estudando os túmulos, notei que algumas lápides declaravam seus artistas e uma delas até o endereço completo donde fora fabricada. 

Foto: Acervo Hefraim Andrade 

A Casa dos Vivos também teve lado religioso, declarando abertamente, para nós, que não aceitava em seu solo não-cristãos, como fora o caso de Adolphine Schramm, uma alemã,  que fora sepultada aos arredores da sua propriedade, às proximidades da Igreja da Boa Hora, por ter uma religião diferente. - Tudo isso aprendi olhando o cemitério e dando ouvidos às falas gritantes dos sepulcros que vagam por todo recinto!

Como havia dito antes, estive lá nessa segunda-feira, e acreditem ou não, acabei ficando preso no cemitério (rsrsrsrsrs). Os coveiros saíram e não repararam a minha presença no local. Tive de pular o muro, o da frente, subindo primeiro no muro lateral direito, que por sinal é baixíssimo, que permite a entrada de qualquer pessoa, como de fato havia, além de mim, um homem muito esquisito agachado sobre o muro. Infelizmente, o que torna esse cemitério assustador não é a presença das pessoas ali sepultadas, mas a presença ou a ausência dos “vivos”! - Também os vivos são os que mais causam-lhe danos! É pelo descuido deles que o cemitério de Maruim chegou ao estado triste no qual encontra-se atualmente! Temo e apavoro-me com a preocupação de que no porvir muitas pessoas si quer saibam onde estão os corpos de seus parentes e conhecidos; os corpos dos artistas, ilustres, religiosos, etc. - pessoas que estão construindo, no presente, a nossa história! Ironicamente, o Cruzeiro do Novo Século é um local “muitíssimo visitado”, mas pouco explorado! A superlotação do mesmo é um problema antigo, que preocupa a população, que põe em risco a saúde pública e a nossa história. Não fora em vão que o filósofo irlandês Edmund Burke (1729 – 1797) dissera: 
“O povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. 

Foto: Acervo Hefraim Andrade

Concluindo, lemos aqui que sim, os mortos e seus jazigos ainda têm muito a dizer! Que há ainda muito a ser contemplado, estudado, agradecido e revelado! Vimos que a morte é mesmo relativa, uma vez que nem sempre significa o fim, mas uma transformação ou mesmo o começo! Também que a cada túmulo e a cada lápide que desaparecer, será um fragmento da nossa história que ir-se-á, que jamais será conhecido! Desde já convido a população maruinense a refletir sobre cada ponto exposto e abordado aqui, como também a visitar o Cemitério, tendo consciência de que há muita informação a ser explorada na Casa dos Vivos! 

Até a próxima!

| Hefraim V. Andrade nasceu em em Aracaju em 1991, membro duma família oriunda da cidade de Riachuelo - SE e de origem judaico-sefardí, que mudara-se para Maruim nos anos 70. É ativista em defesa de Israel e dos Direitos Humanos Universais. Ocupa a cadeira de número dois da Academia Maruinense de Letras e Artes - AMLA. Também Faz parte do Cumbuka Coletivo Cultural, - Grupo apartidário que vem promovendo eventos socioculturas  e de incentivo à sustentabilidade no Município.  Quanto a sua vida na escrita, ela começa na sua infância e passa por sua adolescência e juventude, quando fez parte de eventos de caráter poético e estende-se até os dias atuas indo da sátira ao que se pode entender, por ele mesmo por "formal". | 


5 comentários:

  1. Muito bom!!! Obrigada por trazer essas informações valiosas

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    1. Hefraim Andrade20 de março de 2018 22:01
      Grato Raquel! O Grande Arquiteto propiciou-me isso e meu amigo Lohan Muller,seu instrumento e dono do Blog, acreditou no meu trabalho! Não teria logrado nada se assim não fosse!
      Agradeço também aos que lêem aquilo que escrevo, o que inclui-te, sem os quais nada teria sentido. Atenciosamente.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Acabei de lê tudo isso ( palmas )... parabéns!

    Gostei de ver (palmas).... o que não mata a minha esperança, são pessoas iguais a vocês ( palmas mais uma vez )... # Deveriam me chamar para ir junto ��❤

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    1. Grato Wallaf. Se tivesse lembrado teria convidado-te. Perdoe-me.

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